segunda-feira, 8 de junho de 2015

PHDA NA LINHA DA FRENTE OU NA LINHA DA CONFUSÃO ?

Passaram já algumas horas sobre a Reportagem da RPT1 - Linha da Frente - sobre a Perturbação de Hiperactividade e Défice de Atenção.

A primeira coisa que fiz foi enviar um mail à Jornalista Mafalda Gameiro, felicitando-a pela extensa pesquisa que fez. Infelizmente não foi capaz de dar um rumo isento ao programa e o mesmo acabou por deixar dúvidas, levantar ansiedades, e deixar alguma informação muito mal esclarecida. 

Sinto-me responsável por ter uma atitude de esclarecimento, ainda que não tenha tido qualquer possibilidade de conhecer o conteúdo e rumo da reportagem antes de ser divulgada na noite de sábado.

Claro que o efeito de falar sobre o problema, foi bem conseguido. Acho que hoje não se falou de outra coisa. Ou sou eu que, na preocupação de observar os estragos e tentar minimizar os seus efeitos, não olhei para nada mais. 

No rescaldo da questão sinto ser meu dever contribuir para esclarecer algumas questões importantes. Mais uma vez:

1 - O diagnóstico de PHDA não é recente. Não é moda. É um diagnóstico que tem sofrido muitas alterações na sua designação dado que a investigação tem progressivamente permitido perceber quais as origens dos sintomas. Do "défice de controlo moral, à hipercinésia e à PHDA" o que mudou foi mesmo a explicação dos sintomas. A descrição deste problema tem mais de cem anos e não foi o cientista Eisenberg quem "inventou" a PHDA. Há descrições deste problema em documentos dos finais do século XIX.Ninguém inventou esta síndrome. Crianças e jovens com este problema sempre existiram. Mas com outros nomes, outro impacto na sua vida. 

2 - O diagnóstico de PHDA é clinico, baseado na presença de um conjunto criterioso de sintomas que têm sido estudados como uma Síndrome Comportamental coerente e que tem verdadeiro e real impacto na vida das pessoas de forma prevalente. Avalia-se a presença dos sintomas, o seu impacto e a disrupção no percurso de vida. Não há nenhuma evidência de que fazer análises, seja de que tipo for, possa ser marcador da PHDA. Claro que é importante que se façam análises para que a saúde das crianças seja monitorizada antes de ser administrado um medicamento. Mas essas análises não servem para o diagnóstico. 

3 - A PHDA é um conjunto de sintomas que são comportamentos observáveis e deve ser avaliada na medida do impacto que esses mesmos comportamentos causam no quotidiano das pessoas. A avaliação da PHDA e o seu diagnóstico tem necessariamente de ter uma dimensão ecológica, pois as crianças vivem no seio das suas famílias e escolas. Sem esta dimensão ecológica, nenhum diagnóstico será bem feito. Mesmo que se digam exames complementares, não há, à data, qualquer evidência de que sejam úteis e que possam introduzir dados para o diagnóstico ou para o excluir. Se assim fosse o problema do diagnóstico estaria resolvido e existiriam normas internacionais a recomendarem estas análises. A divulgação desta informação é perigosa. E deixou os pais baralhados, incertos e a pensarem que não estão a fazer tudo pelos filhos. 

4- O que se passa no cérebro não tem espelho directo no sangue. A dinâmica das funções cognitivas é bem mais complexa e sobretudo na PHDA necessariamente. Os sintomas da PHDA têm uma expressão no contexto. Como diz o norte americano Russel Barkley, de forma brilhante a meu ver: "ADHD is a disorder in the point of performance". Então teriam de ser medidos com as crianças em acção especifica e ainda assim seria muito difícil servirem de marcadores à perturbação.

5 - O diagnóstico de PHDA é complexo, sujeito a erros, por isso mesmo deve ser feito por equipas multidisciplinares com experiência e conhecimento. 

6 - Os  diagnósticos na infância são dinâmicos e muitas vezes uma intervenção em determinados sintomas faz evidenciar outros que alteram a percepção que se tinha de inicio. Nada como aceitar que o desenvolvimento é algo dinâmico e evolutivo. Acontece muitas vezes e isso não quer dizer que o primeiro diagnóstico esteja totalmente errado. 

7 - A intervenção para a PHDA vai muito além da medicação. E nada se diz sobre isto. Nunca se aborda o tipo de trabalho que se pode fazer com os pais, com as escolas e com as crianças e adolescentes. Nunca se fala das coisas boas que acontecem neste domínio e de como os nossos profissionais de saúde trabalham bem. E não existe tal coisa como terapias em alternativa. A medicação e a intervenção psicossocial são complementares. 

8 - Este é um assunto sério. Trata-se da vida diária de muitas famílias que se esforçam para dar o melhor aos filhos muitas crianças e adolescentes que batalham se regularem, para se concentrarem e fazerem melhor. Trata-se da vida de adultos que viveram as suas vidas com um problema que, não tendo sido identificado de forma correcta, os deixou a pensar o pior sobre si mesmos, confusos e inquietos por não entenderem o porquê das suas dificuldades mais comuns. Como no caso da Joana Gonçalves, tão indecentemente associado ao abuso de substância e não à toma por prescrição médica. 

9 - Por fim é inacreditável que se tenha falado de abuso de metilfenidato num programa sobre PHDA. O que é que uma coisa tem a ver com a outra? É o mesmo que falar da falta de tempo para brincar, da falta de tempo de qualidade nas famílias, do excesso de ecrãs, do sedentarismo da infância e relacionar tudo isso com o aumento de casos de PHDA. É tão fácil quando temos um bode expiatório... 

Volto a dizer. Este é um assunto sério. Que tem o direito de ser bem tratado e de deixar de ser motivo para se abordarem questões de outra natureza como interesses políticos e comerciais. Será possível um dia termos um programa televisivo ou jornalístico que aborde esta questão de forma serena e séria?

Assim o espero.Este foi só mais um passo no caminho.

Ana Rodrigues