segunda-feira, 20 de abril de 2020

Quantas Janelas tem um momento.




Primeira - A da esquerda. Ampla. Que revela outras tantas no topo dos telhados do nosso bairro. Janelas de sótãos e águas-furtadas que me levam a imaginar pequenos espaços de conforto, espaços de guardar memórias, espaços abandonados à espera da descoberta. Espaços onde por vezes entra mais um caixote, espaços de trabalho ou onde brincar é o lema. Janela que se abre ou fecha, deixa entrar ou filtra a luz intensa do sol. A Janela onde pousam os pássaros e me olham com curiosidade; “ - estranho Ser aqui sentado…”.



Segunda - A da frente. Uma Janela, duas, vinte, tantas…. Janelas múltiplas de acesso ao mundo inteiro. Afinal onde é o mundo? À esquerda ou em frente? Esta(s) abre(m)-se num clique para onde eu quiser… para as letras de textos, imagens de tudo, sons e música. Abrem-se para muitos rostos, por vezes menos sorridentes que o habitual ou abrem-se para um rosto apenas. A Janela que mais paisagens tem, é esta, a da frente. Onde nos encontramos hoje? Na janela da frente… numa das mil janelas da frente… qual preferes? Essa não que não é segura. A Janela que permite que tudo aconteça sem vento, sem sol, sem calor ou cheiro… Porém, a janela que permite que tudo se mantenha a funcionar, que permite a certeza de continuarmos a existir para o mundo e a trazer o mundo até nós. A Janela que, na distância, aproxima e aproximando mantém a distância. Essa janela que absorve e se torna indispensável.


Terceira - A da direita. Que não existe na verdade mas que dá acesso à maior e mais importante janela. A de dentro. Essa janela que se mantém serena, à espera do seu tempo e que, resiliente, aguarda que a da frente se feche de vez. Vou sentindo a pressão dessa janela que se inquieta com o tempo que a da frente ocupa, porque, nas suas múltiplas facetas parece não ser a mesma e vai enganando todos. Não quero que esta janela se feche mas a da esquerda distraí e a da frente exige tanto…



E assim, num momento em que as palavras se tornam companhia, as três janelas coexistem. 

Quantas janelas cabem num momento?

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017




Este video está por todo o lado.
É fabuloso, como são as coisas simples. 
O narrador começa por dizer que "é fácil colocar as pessoas em caixas". Eu diria que é Natural.
O nosso cérebro social precisa destas "caixas" para se organizar e funcionar. Se assim não fosse a informação que recolhe em cada momento seria um dado aleatório que não pode ser processado e como tal nunca poderá ser útil para organizar o comportamento. Por isso, o cérebro, na sua inteligência adaptativa, tal como explicou Darwin, faz aquilo que tem de fazer para sobreviver e prevalecer neste mundo. Brilhante em termos de adaptação...
Mas somos nós apenas isto? Deixamos que as "caixinhas" sociais, as categorias esteriotipadas sejam a base das nossas relações, do pensamento sobre os outros?
Diz o Daniel Goleman no seu livro "Foco" que "só quando nos distraímos podemos ver mais além"... e quando nos distraímos da caixa onde tudo encaixa, vemos o que não é fácil de ver, vemos o que está mais além e se essa característica passar a ser preponderante, então até acontece que há outra caixa para organizar o pensamento, os dados recolhidos e minimizar o caos que essa distracção provocou. E assim pode ser, eternamente, se nos formos distraindo, recolhendo informação, organizando noutra caixa, abrindo de novo a caixa, vendo o que não era tão visível e mudando a perspectiva num percurso adaptativo... Nada fácil...

A questão nem é bem que não se deva colocar as "pessoas em caixas". A questão é quando as caixas definem as pessoas e isso não é problema das caixas... é problema de quem não consegue distrair-se um pouco, ver mais além, pensar "fora da caixa" olhar o outro e pesquisar nas entrelinhas e, no fundo, adaptar-se a cada momento em que se evolui para Ser Mais Humano. Porque não é uma caixa que define um ser humano... mas os seres humanos precisam das caixas para se organizar. Enfim.. apenas um pensamento!

segunda-feira, 8 de junho de 2015

PHDA NA LINHA DA FRENTE OU NA LINHA DA CONFUSÃO ?

Passaram já algumas horas sobre a Reportagem da RPT1 - Linha da Frente - sobre a Perturbação de Hiperactividade e Défice de Atenção.

A primeira coisa que fiz foi enviar um mail à Jornalista Mafalda Gameiro, felicitando-a pela extensa pesquisa que fez. Infelizmente não foi capaz de dar um rumo isento ao programa e o mesmo acabou por deixar dúvidas, levantar ansiedades, e deixar alguma informação muito mal esclarecida. 

Sinto-me responsável por ter uma atitude de esclarecimento, ainda que não tenha tido qualquer possibilidade de conhecer o conteúdo e rumo da reportagem antes de ser divulgada na noite de sábado.

Claro que o efeito de falar sobre o problema, foi bem conseguido. Acho que hoje não se falou de outra coisa. Ou sou eu que, na preocupação de observar os estragos e tentar minimizar os seus efeitos, não olhei para nada mais. 

No rescaldo da questão sinto ser meu dever contribuir para esclarecer algumas questões importantes. Mais uma vez:

1 - O diagnóstico de PHDA não é recente. Não é moda. É um diagnóstico que tem sofrido muitas alterações na sua designação dado que a investigação tem progressivamente permitido perceber quais as origens dos sintomas. Do "défice de controlo moral, à hipercinésia e à PHDA" o que mudou foi mesmo a explicação dos sintomas. A descrição deste problema tem mais de cem anos e não foi o cientista Eisenberg quem "inventou" a PHDA. Há descrições deste problema em documentos dos finais do século XIX.Ninguém inventou esta síndrome. Crianças e jovens com este problema sempre existiram. Mas com outros nomes, outro impacto na sua vida. 

2 - O diagnóstico de PHDA é clinico, baseado na presença de um conjunto criterioso de sintomas que têm sido estudados como uma Síndrome Comportamental coerente e que tem verdadeiro e real impacto na vida das pessoas de forma prevalente. Avalia-se a presença dos sintomas, o seu impacto e a disrupção no percurso de vida. Não há nenhuma evidência de que fazer análises, seja de que tipo for, possa ser marcador da PHDA. Claro que é importante que se façam análises para que a saúde das crianças seja monitorizada antes de ser administrado um medicamento. Mas essas análises não servem para o diagnóstico. 

3 - A PHDA é um conjunto de sintomas que são comportamentos observáveis e deve ser avaliada na medida do impacto que esses mesmos comportamentos causam no quotidiano das pessoas. A avaliação da PHDA e o seu diagnóstico tem necessariamente de ter uma dimensão ecológica, pois as crianças vivem no seio das suas famílias e escolas. Sem esta dimensão ecológica, nenhum diagnóstico será bem feito. Mesmo que se digam exames complementares, não há, à data, qualquer evidência de que sejam úteis e que possam introduzir dados para o diagnóstico ou para o excluir. Se assim fosse o problema do diagnóstico estaria resolvido e existiriam normas internacionais a recomendarem estas análises. A divulgação desta informação é perigosa. E deixou os pais baralhados, incertos e a pensarem que não estão a fazer tudo pelos filhos. 

4- O que se passa no cérebro não tem espelho directo no sangue. A dinâmica das funções cognitivas é bem mais complexa e sobretudo na PHDA necessariamente. Os sintomas da PHDA têm uma expressão no contexto. Como diz o norte americano Russel Barkley, de forma brilhante a meu ver: "ADHD is a disorder in the point of performance". Então teriam de ser medidos com as crianças em acção especifica e ainda assim seria muito difícil servirem de marcadores à perturbação.

5 - O diagnóstico de PHDA é complexo, sujeito a erros, por isso mesmo deve ser feito por equipas multidisciplinares com experiência e conhecimento. 

6 - Os  diagnósticos na infância são dinâmicos e muitas vezes uma intervenção em determinados sintomas faz evidenciar outros que alteram a percepção que se tinha de inicio. Nada como aceitar que o desenvolvimento é algo dinâmico e evolutivo. Acontece muitas vezes e isso não quer dizer que o primeiro diagnóstico esteja totalmente errado. 

7 - A intervenção para a PHDA vai muito além da medicação. E nada se diz sobre isto. Nunca se aborda o tipo de trabalho que se pode fazer com os pais, com as escolas e com as crianças e adolescentes. Nunca se fala das coisas boas que acontecem neste domínio e de como os nossos profissionais de saúde trabalham bem. E não existe tal coisa como terapias em alternativa. A medicação e a intervenção psicossocial são complementares. 

8 - Este é um assunto sério. Trata-se da vida diária de muitas famílias que se esforçam para dar o melhor aos filhos muitas crianças e adolescentes que batalham se regularem, para se concentrarem e fazerem melhor. Trata-se da vida de adultos que viveram as suas vidas com um problema que, não tendo sido identificado de forma correcta, os deixou a pensar o pior sobre si mesmos, confusos e inquietos por não entenderem o porquê das suas dificuldades mais comuns. Como no caso da Joana Gonçalves, tão indecentemente associado ao abuso de substância e não à toma por prescrição médica. 

9 - Por fim é inacreditável que se tenha falado de abuso de metilfenidato num programa sobre PHDA. O que é que uma coisa tem a ver com a outra? É o mesmo que falar da falta de tempo para brincar, da falta de tempo de qualidade nas famílias, do excesso de ecrãs, do sedentarismo da infância e relacionar tudo isso com o aumento de casos de PHDA. É tão fácil quando temos um bode expiatório... 

Volto a dizer. Este é um assunto sério. Que tem o direito de ser bem tratado e de deixar de ser motivo para se abordarem questões de outra natureza como interesses políticos e comerciais. Será possível um dia termos um programa televisivo ou jornalístico que aborde esta questão de forma serena e séria?

Assim o espero.Este foi só mais um passo no caminho.

Ana Rodrigues

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Mudanças - A propósito do inicio do ano lectivo


Escrevi este texto no inicio do ano lectivo de 2010-2011. A minha filha mais nova mudara de escola e de ciclo de ensino. A mais velha iniciava um ano de fim de ciclo. Mudava um pouco a minha vida. Julgo que todos os pais sentem isto.


Hoje é dia de recomeçar. Dia de voltar ao ciclo que empurra para que elas cresçam um pouco mais. Este ano com uma no 7º e outra no 12º. 
Logo pela manhã, o nosso mundo transforma-se:

Mãe, bom dia (Meu Deus são apenas 6.45...)
Levo esta roupa por causa das praxes... (O quê?...)
Mãe, tens de me deixar nas traseiras da escola, para eu ir sózinha com as minhas amigas ( e eu assim fiz...)
E ela lá foi. Nas cores alegres do grupo (aposto que todas com roupa velha, por causa das praxes). No aceno tímido, quando buzinei para me despedir (nem tempo tive com a pressa com que saiu do carro), na ausência de resposta ao meu sms (passada meia hora - "então onde combinamos para te ir buscar?").

Já a outra... a escola é a mesma, mas hoje é o primeiro dia de um último ciclo. E nas conversas os horizontes são imensos e cheios de tudo menos de colo de mãe. 

E neste balanço da manhã, fico a pensar que a vida me apanha desprevenida, por mais que tenha pensado nela. 



As mudanças fazem parte da vida. Aliás, nem vida seria se tudo estivesse sempre na mesma. Nenhuma mudança se faz sem um custo, muito embora queiramos que seja mínimo pelo menos no que toca os sentimentos mais negativos. Mudar de escola, de ciclo de ensino é sempre um momento de crise. Entendamos a crise como um salto no sentido do desenvolvimento e da aprendizagem. Ora, sendo uma crise e uma mudança natural e desejável importa que seja vivida como tal.

Falemos da mudança do 1º para o 2º ciclo que tanto atormenta pais e filhos e que coincide, em termos de desenvolvimento, com a entrada na pré-adolescência e com um desenvolvimento acelerado em muitos domínios com especial enfase no domínio social. O horizonte de relações torna-se mais amplo, a importância das mesmas relativiza-se e as amizades surgem como fundamentais na vida diária. A capacidade de integrar informação é cada vez maior e de natureza mais dispersa.

Mas, nas nossas cabeças de pais, eles ainda são um “bocadinho pequenos”, um “bocadinho imaturos” para tanta mudança, tanto professor, tanto livro diferente, tanto TPC e datas de testes, tanta informação de como utilizar o cartão da escola, como fazer para ir almoçar, ou comprar folhas de teste…

Nas nossas cabeças de pais ainda são” muito pequenos”… E confesso que é bom que assim seja. Dessa forma podemos ser um suporte.Ser suporte não é de todo estar lá sempre. Esta é uma fase fundamental para adquirir autonomia com responsabilidade e os nossos filhos têm já largas competências para tal. Claro que não podemos querer que tudo saia bem logo nos primeiros tempos. Que não troquem os livros, que saibam de cor o horário, que não se esqueçam dos TPC e das datas dos testes. Mas podemos encontrar formas de os suportar nas suas dificuldades lançando ideias e estratégias de como solucionar. Nada como aceitar que queiram ser mais crescidos e ao mesmo tempo façam asneira. Importante  é que entendam que não agiram de forma correcta e que têm recursos para o fazer. Importante é aceitarmos que nenhuma mudança se faz de repente e sem custo e que aqui o “custo” é estarmos disponíveis para os ouvir e para os ajudar a pensar.

É uma fase em que começam a aceitar menos bem as nossas sugestões e regras. Mas as regras e aquilo que para eles desejamos é fundamental para que cresçam saudáveis e não podemos prescindir de ter esse papel. Quer dizer que, nesta altura, e perante tamanhas mudanças, temos de encontrar o espaço para, com serenidade, discutir com eles condições, negociar o dia a dia e ajudar a encontrar soluções para aqueles momentos em que nada vai estar bem na vida deles e em que nada do que dissermos ajuda, porque não percebemos nada.

Como noutras fases, ainda que de forma diferente, precisam que os pais façam o seu papel. Agora numa dimensão de promoção de autonomia. É nesta fase que ganham autonomia para se deslocarem sozinhos, para estudarem sozinhos, para se organizarem e planearem as suas tarefas diárias e para tomarem as suas decisões. É muito importante que – como nesta estória - sejamos capazes de estar lá e ao mesmo tempo de nos sentarmos no chão, num repente de assombro, de como é que a vida nos deixa, assim sem mais nem menos a olhar para seres humanos que querem e estão a começar a voar…

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Troc@tilhos II

Este blog pretende ser um espaço onde se escrevem Estórias. 
Estórias de todos os dias e de todos nós.

A ideia é simples. 

Temos todos estórias para contar acerca das nossas vidas, dos filhos, dos netos, dos sobrinhos, das nossas reacções, dos nossos espantos, incredulidades, sentimentos e emoções. Temos sempre aquela estória sobre o que um dos miudos disse, o que um dos adultos respondeu, a surpresa perante um comportamento.... enfim mil coisas que fazem os nossos dias.

A partir delas pensamos. 
Sonhamos, 
Crescemos. 
Aprendemos. Somos mais Humanos. 

Assim há um espaço que chamei de "a propósito de..." onde vou colocar pequenas estórias pensadas. estórias que podem servir para pensar em geral sobre o desenvolvimento infantil, sobre as relações entre pais e filhos, entre irmãos, entre pessoas da mesma família... amigos. "a propósito de" é assim como que um encontro informal em que algo nos leva a pensar, e o pensamento nos leva a querer partilhar. 

Se tiver uma dessas estórias fabulosas, coisas que os filhos (ou outros) disseram e fizeram, coisas que aconteceram e vos surpreenderam... enviem para servirem de mote a uma reflexão, a um pensamento para partilhar. 

Cá vos espero. 


domingo, 7 de outubro de 2012

Troc@tilhos

Este blogue nasceu na estrada. 
De ideias guardadas. 
De ideias partilhadas. 
Foi surgindo devagar, sereno, ao sabor do caminho, da vontade de conversar, do querer estar mais perto.
Nasceu no caminho que se fez e se irá fazer um dia, diferente, com gente.
Nasceu entre a montanha e o mar. Num abrupto de mudança de paisagem e o assombro da descoberta do nome certo.

Troc@tilhos.
De trocadilhos, 
de Trocar Atilhos, 
de ter os atilhos para apertar e não saber como fazer, 
de ter que desapertar os atilhos e não saber como fazer, 
de Trocar, Dar e Receber, 
de Atilhos, nós, laços e afins que nos unem.

Troc@tilhos.
De contar uma estória e sobre ela pensar;
De partilhar a vida em crescimento;
De partilhar o que é difícil ou fácil, simples ou complexo;
De dizer e ouvir coisas.