Escrevi este texto no inicio do ano lectivo de 2010-2011. A minha filha mais nova mudara de escola e de ciclo de ensino. A mais velha iniciava um ano de fim de ciclo. Mudava um pouco a minha vida. Julgo que todos os pais sentem isto.
Hoje é
dia de recomeçar. Dia de voltar ao ciclo que empurra para que elas cresçam um
pouco mais. Este ano com uma no 7º e outra no 12º.
Logo
pela manhã, o nosso mundo transforma-se:
Mãe,
bom dia (Meu Deus são apenas 6.45...)
Levo
esta roupa por causa das praxes... (O quê?...)
Mãe,
tens de me deixar nas traseiras da escola, para eu ir sózinha com as minhas
amigas ( e eu assim fiz...)
E ela
lá foi. Nas cores alegres do grupo (aposto que todas com roupa velha, por causa
das praxes). No aceno tímido, quando buzinei para me despedir (nem tempo tive
com a pressa com que saiu do carro), na ausência de resposta ao meu sms
(passada meia hora - "então onde combinamos para te ir buscar?").
Já a
outra... a escola é a mesma, mas hoje é o primeiro dia de um último ciclo. E
nas conversas os horizontes são imensos e cheios de tudo menos de colo de
mãe.
E neste
balanço da manhã, fico a pensar que a vida me apanha desprevenida, por mais que
tenha pensado nela.
As mudanças fazem parte da vida. Aliás, nem
vida seria se tudo estivesse sempre na mesma. Nenhuma mudança se faz sem um
custo, muito embora queiramos que seja mínimo pelo menos no que toca os
sentimentos mais negativos. Mudar de escola, de ciclo de ensino é sempre um
momento de crise. Entendamos a crise como um salto no sentido do desenvolvimento
e da aprendizagem. Ora, sendo uma crise e uma mudança natural e desejável
importa que seja vivida como tal.
Falemos da mudança do 1º para o 2º ciclo que tanto atormenta pais e filhos e que coincide, em termos de desenvolvimento, com a entrada na pré-adolescência e
com um desenvolvimento acelerado em muitos domínios com especial enfase no
domínio social. O horizonte de relações torna-se mais amplo, a importância das
mesmas relativiza-se e as amizades surgem como fundamentais na vida diária. A
capacidade de integrar informação é cada vez maior e de natureza mais dispersa.
Mas, nas nossas cabeças de pais, eles ainda
são um “bocadinho pequenos”, um “bocadinho imaturos” para tanta mudança, tanto
professor, tanto livro diferente, tanto TPC e datas de testes, tanta informação
de como utilizar o cartão da escola, como fazer para ir almoçar, ou comprar
folhas de teste…
Nas nossas cabeças de pais ainda são” muito
pequenos”… E confesso que é bom que assim seja. Dessa forma podemos ser um
suporte.Ser suporte não é de todo estar lá sempre.
Esta é uma fase fundamental para adquirir autonomia com responsabilidade e os
nossos filhos têm já largas competências para tal. Claro que não podemos querer
que tudo saia bem logo nos primeiros tempos. Que não troquem os livros, que
saibam de cor o horário, que não se esqueçam dos TPC e das datas dos testes.
Mas podemos encontrar formas de os suportar nas suas dificuldades lançando
ideias e estratégias de como solucionar. Nada como aceitar que queiram ser mais
crescidos e ao mesmo tempo façam asneira. Importante é que entendam que não agiram de forma correcta
e que têm recursos para o fazer. Importante é aceitarmos que nenhuma mudança se
faz de repente e sem custo e que aqui o “custo” é estarmos disponíveis para os
ouvir e para os ajudar a pensar.
É uma fase em que começam a aceitar menos bem
as nossas sugestões e regras. Mas as regras e aquilo que para eles desejamos é
fundamental para que cresçam saudáveis e não podemos prescindir de ter esse
papel. Quer dizer que, nesta altura, e perante tamanhas mudanças, temos de
encontrar o espaço para, com serenidade, discutir com eles condições, negociar
o dia a dia e ajudar a encontrar soluções para aqueles momentos em que nada vai
estar bem na vida deles e em que nada do que dissermos ajuda, porque não
percebemos nada.
Como noutras fases, ainda que de forma diferente,
precisam que os pais façam o seu papel. Agora numa dimensão de promoção de
autonomia. É nesta fase que ganham autonomia para se deslocarem sozinhos, para
estudarem sozinhos, para se organizarem e planearem as suas tarefas diárias e
para tomarem as suas decisões. É muito importante que – como nesta estória -
sejamos capazes de estar lá e ao mesmo tempo de nos sentarmos no chão, num
repente de assombro, de como é que a vida nos deixa, assim sem mais nem menos a
olhar para seres humanos que querem e estão a começar a voar…
