terça-feira, 9 de outubro de 2012

Mudanças - A propósito do inicio do ano lectivo


Escrevi este texto no inicio do ano lectivo de 2010-2011. A minha filha mais nova mudara de escola e de ciclo de ensino. A mais velha iniciava um ano de fim de ciclo. Mudava um pouco a minha vida. Julgo que todos os pais sentem isto.


Hoje é dia de recomeçar. Dia de voltar ao ciclo que empurra para que elas cresçam um pouco mais. Este ano com uma no 7º e outra no 12º. 
Logo pela manhã, o nosso mundo transforma-se:

Mãe, bom dia (Meu Deus são apenas 6.45...)
Levo esta roupa por causa das praxes... (O quê?...)
Mãe, tens de me deixar nas traseiras da escola, para eu ir sózinha com as minhas amigas ( e eu assim fiz...)
E ela lá foi. Nas cores alegres do grupo (aposto que todas com roupa velha, por causa das praxes). No aceno tímido, quando buzinei para me despedir (nem tempo tive com a pressa com que saiu do carro), na ausência de resposta ao meu sms (passada meia hora - "então onde combinamos para te ir buscar?").

Já a outra... a escola é a mesma, mas hoje é o primeiro dia de um último ciclo. E nas conversas os horizontes são imensos e cheios de tudo menos de colo de mãe. 

E neste balanço da manhã, fico a pensar que a vida me apanha desprevenida, por mais que tenha pensado nela. 



As mudanças fazem parte da vida. Aliás, nem vida seria se tudo estivesse sempre na mesma. Nenhuma mudança se faz sem um custo, muito embora queiramos que seja mínimo pelo menos no que toca os sentimentos mais negativos. Mudar de escola, de ciclo de ensino é sempre um momento de crise. Entendamos a crise como um salto no sentido do desenvolvimento e da aprendizagem. Ora, sendo uma crise e uma mudança natural e desejável importa que seja vivida como tal.

Falemos da mudança do 1º para o 2º ciclo que tanto atormenta pais e filhos e que coincide, em termos de desenvolvimento, com a entrada na pré-adolescência e com um desenvolvimento acelerado em muitos domínios com especial enfase no domínio social. O horizonte de relações torna-se mais amplo, a importância das mesmas relativiza-se e as amizades surgem como fundamentais na vida diária. A capacidade de integrar informação é cada vez maior e de natureza mais dispersa.

Mas, nas nossas cabeças de pais, eles ainda são um “bocadinho pequenos”, um “bocadinho imaturos” para tanta mudança, tanto professor, tanto livro diferente, tanto TPC e datas de testes, tanta informação de como utilizar o cartão da escola, como fazer para ir almoçar, ou comprar folhas de teste…

Nas nossas cabeças de pais ainda são” muito pequenos”… E confesso que é bom que assim seja. Dessa forma podemos ser um suporte.Ser suporte não é de todo estar lá sempre. Esta é uma fase fundamental para adquirir autonomia com responsabilidade e os nossos filhos têm já largas competências para tal. Claro que não podemos querer que tudo saia bem logo nos primeiros tempos. Que não troquem os livros, que saibam de cor o horário, que não se esqueçam dos TPC e das datas dos testes. Mas podemos encontrar formas de os suportar nas suas dificuldades lançando ideias e estratégias de como solucionar. Nada como aceitar que queiram ser mais crescidos e ao mesmo tempo façam asneira. Importante  é que entendam que não agiram de forma correcta e que têm recursos para o fazer. Importante é aceitarmos que nenhuma mudança se faz de repente e sem custo e que aqui o “custo” é estarmos disponíveis para os ouvir e para os ajudar a pensar.

É uma fase em que começam a aceitar menos bem as nossas sugestões e regras. Mas as regras e aquilo que para eles desejamos é fundamental para que cresçam saudáveis e não podemos prescindir de ter esse papel. Quer dizer que, nesta altura, e perante tamanhas mudanças, temos de encontrar o espaço para, com serenidade, discutir com eles condições, negociar o dia a dia e ajudar a encontrar soluções para aqueles momentos em que nada vai estar bem na vida deles e em que nada do que dissermos ajuda, porque não percebemos nada.

Como noutras fases, ainda que de forma diferente, precisam que os pais façam o seu papel. Agora numa dimensão de promoção de autonomia. É nesta fase que ganham autonomia para se deslocarem sozinhos, para estudarem sozinhos, para se organizarem e planearem as suas tarefas diárias e para tomarem as suas decisões. É muito importante que – como nesta estória - sejamos capazes de estar lá e ao mesmo tempo de nos sentarmos no chão, num repente de assombro, de como é que a vida nos deixa, assim sem mais nem menos a olhar para seres humanos que querem e estão a começar a voar…

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